sábado, 1 de dezembro de 2012

Amores, bundas e pé na bunda


O pé na bunda (apesar da dor física insuportável, que reflete diretamente e de forma aguda no peito, irradiando no coração a sensação de ter sido triturado), gera impulso e força para se seguir em frente e por isso, pensando bem, deveria ser chamado de pé na estrada.

Quando levamos um desses e, diga-se de passagem: QUE MERDA! temos a oportunidade de sair por aí com a bunda na estrada, cabelo ao vento e sem direção. No início essa cena não parece nem um pouco hollywoodiana, até porque dói pracaralho, mas depois que se reaprende a ser feliz colado em sua própria companhia, é só empinar a bunda, colocá-la na estrada,  refazer o pacto com seu amor próprio e brindar com o espelho.

Pior quando “o” ou “a” debandante propõe: “vamos dar um tempo, encare isso como um tempo separados.” Putz, tradução: “pessoa babaca, fica aí me esperando com esse miserável e inconsolável coração enquanto eu ponho o pé na estrada e, se eu me arrepender, volto para o seu colo quente me aguardando.”

Ô coisa deprimente término de relacionamentos! A gente nunca vai ficar satisfeito (a) mesmo. Não tem jeito, você entrou com a bunda e o outro entrou com o pé, não há como ter uma finalização harmoniosa e igualitária. Não tem como ser digno. Ficar se questionando se foi por e.mail, se levou 5 minutos dentro do carro, se foi por telefone, na semana do seu aniversário, se foi inesperado, não importa, o essencial é que não será mais. Pare de chorar pitangas, amoras ou saudosos amores! A-C-A-B-O-U!

Acredite, ficar tentando entender o que você fez a mais ou de menos, identificar onde foi que errou, o que passa na cabeça de quem chutou a sua bunda, se tomou toddynho estragado, se foi ele (a) ou você quem deu defeito, se há outro ou outra na parada, se os astros estão de mau humor, se combinam ou não,
E-S-Q-U-E-CE! Nada disso te servirá para porra nenhuma.

Fato é: ele ou ela, não está mais ou nunca esteve a fim de você! A verdade peladona é que não houve disposição suficiente para resolver conflitos, transformar as crises em oportunidades, as diferenças em atitudes respeitosas e as conversas honestas em intimidade. Resumindo, não houve amor!

O sociólogo Bauman nos convida a uma reflexão no seu livro “Modernidade líquida” (vale a pena conferir) sobre a individualização nos dias de hoje pois “(...) o que aprendemos antes de mais nada da companhia de outros é que o único auxílio que ela pode prestar é como sobreviver em nossa solidão irremível, e que a vida de todo mundo é cheia de riscos que devem ser enfrentados solitariamente.”

Pena que muitas pessoas não acreditam mais que os relacionamentos podem trazer uma realidade alternativa, tornando os problemas mais fáceis de serem manejados, quando confrontados e trabalhados em parceria. As relações hoje são instantâneas e descartáveis, deu defeito eu me desfaço, elimino, jogo fora! Ninguém quer consertar, reconstruir ou cuidar de mais nada. E isso vai de celulares aos relacionamentos, tudo tão líquido, instantâneo, descartável.

Nesse ponto tenho um saudosismo meio masoquista pelas histórias de alguns casais, a maioria de “antigamente”, quando as pessoas eram mais dispostas a consertarem, negociarem e reconstruírem as coisas. Deu defeito, a gente conserta, está doente, a gente cuida, está triste, vou te arrancar um sorriso, está sem ânimo, vamos buscar juntos uma solução, faltou a grana a gente junta o que tem. A questão era trabalhar em conjunto, lado a lado. É lógico que não há como mumificar os processos, o mundo mudou, as pessoas mudaram, as gerações anteriores sofreram várias pressões e atravessamentos para não se separarem, mas em contrapartida as relações não eram tão descartáveis assim.

É tanto, que pasmem, é possível um ex. casal se cruzar na rua após o rompimento e se cumprimentarem com um tchauzinho patético. Lamentável essa cena cretinizante e insignificante pós relacionamento. “O” cara ou “a” cara partilhou dissabores e sabores contigo, drama e cama e, ops, derepente você pensa: que triste! Talvez fosse melhor nunca ter cruzado pela primeira vez com essa figura, quiçá agora, nessa faixa de pedestres.

Pior ainda são as explicações pra boi sonhar após tomar Rivotril. São mais trágicas muitas vezes que o rompimento em si. Porra, pára com essa lamúria de merda! Faltou amor e pronto!

Simplesmente agradeça o pé na bunda e saiba que as maiores inspirações e criações emergem depois de histórias de horror e dor. A cantora e compositora britânica Adele, estourou mesmo com toda a sua potência após seu namorado ter virado fanta uva, tendo preferido a cheirada no cangote de outro marmanjo à voz melodiosa da Adele ao pé do ouvido. Pois é, a vida é assim...

Podem me chamar de conservadora mas sou mesmo pré-histórica. Gosto mesmo é das coisas e pessoas com as quais já tenho uma relação de intimidade, gosto de celular que já sei mexer, aquele antigo que já sabe até a hora de me acordar e só troco quando não tem outro jeito. Gosto daquela conchinha tão perfeita que já tem o formato da sua bunda na barriga do outro e, é uma delícia amanhecer com a orquídea que você tem tatuada nas costas na pele do outro. Adoro aquele vestido que tem história, amo cheiro que tem memória. Gosto mais dos sapatos que já tem o forma do meu pé. Curto aquelas ruguinhas que mostram a doçura e um certo embaraço no sorriso do ser amado.

Verdade mesmo é que, quando “o” cara ou “a” cara quer, faz acontecer juntos e, é claro, vocês se tornam muito melhores e mais potentes.

Aceite que você deixou de ser (ou nunca foi) aquele sucesso deslumbrante, aquela cor cintilante, uma atração estonteante, um prazer inesperado, para se tornar uma perturbação ambulante na vida do outro (ou um caminhão de problemas como já ouvi por aí).

Mas vejam bem, verdade, verdade mesmo, verdade mesmo de verdade (pra mim é claro) é que UM GRANDE AMOR é fácil de se reconhecer, ele APENAS PRECISA SER COMO A BUNDA: MERDA NENHUMA SEPARA.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Simplificando a vida...

Eu sempre imaginei que não faria sentido algum envelhecer, ver o corpo “empelancar”, o rosto virar papel crepom, o cabelo mudar de cor (de preto para branco e/ou cair), a memória falhar (amostra grátis do Alzheimer), a barriga crescer e a bunda cair. Preferia que a barriga se extinguisse e a bunda crescesse, por exemplo. Há de se ter um propósito, se não houvesse ganhos que compensassem  esses e muitos outros déficits. Porra, essa história de "melhor idade" não me convence.

E, finalmente na proximidade dos 40, as respostas começam a aparecer, uma atrás da outra, como se muitas coisas passassem a fazer sentido somente agora. Mas, a melhor de todas as minhas descobertas dos últimos tempos posta em prática, graças a uma antiga ajuda de Millôr Fernandes, quero partilhar com vocês.

Eu descobri que viver pode ser mais simples do que se imagina. Sempre achei o sistema binário fácil de se lidar: sim ou não E PONTO.  Na música, ao compasso, o ritmo é formado por 2 tempos. Essa simplificação da função binária, apresentando apenas 2 variáveis, embora medíocre, torna a vida mais fácil.

Mas algo nesse modus operandi ainda não encaixava o meu lego. Eu queria mais… Então, coloco em prática a nova função, o sistema de respostas trinário. Um cientista americano descobriu um planeta com 3 sóis e vejam um dos comentários: "com 3 sóis, a vista do céu deve ser de outro mundo - literalmente e simbolicamente." Ou seja, um sistema trinário é muito bem vindo.

A vida então, com 3 variáveis, vejamos com o 3º elemento:

(      ) sim
(      ) não
(      ) foda-se

Agora sim, tudo fez sentido.  Há 3 respostas para as questões: sim, não e foda-se. Plenamente possível viver apertando somente 3 botões. Já experimentou? Tenta só! Dá até pra refazer uma música: e a vida o que é, diga lá meu irmão, sim, não e foda-se, é bonita, é bonita e é bonita...

Então, de acordo com Millôr Fernandes em “Palavrão - uma terapia”:  “o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de ´foda-se!´ que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do ´foda-se!´? O ´foda-se!´ aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta.´Não quer sair comigo? Então foda-se!´. ´Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!´. O direito ao ´foda-se!´ deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se."

Na verdade, de forma diametralmente oposta, ao mesmo tempo que o “foda-se” te recoloca em seu eixo, também traz a tona a constatação do total descontrole que temos sobre as situações…

É quando percebemos que não podemos controlar alguma ou nenhuma (o que é mais comum) variável do problema.  Seu filho não quer comer e você já tentou de tudo: foda-se (uma hora o pela-saquinho vai sentir fome e pedirá biscoitos, você então entuba a comida). Seu namorado não te corresponde: foda-se (uma hora um concorrente – ou vários – vai  querer fazer história ao seu lado, rendendo galanteios e muitos elogios para você, e então, o retardatário se manca ou leva um cartão vermelho). Seu cliente não gostou do job que você fez com tanto empenho: foda-se (ou você refaz e aprende pra caralho com as críticas recebidas ou perde o cliente).

Tentava ontem mesmo explicar ao meu filho o que é ser um gay, já que ele tinha convivido com alguns  na festa de uma amiga. Mas lá, o gay vestia-se de homem, com trejeitos femininos ou melhor exageradamente delicados e, expliquei que apenas “é um cara que gosta de namorar outros homens”, disse-lhe. Logo depois, na Lapa, ele viu alguns travestis e perguntou a respeito, respondi que aqueles eram caras que queriam ser mulher, por isso se vestiam de mulher, pois gostariam de ter nascido em um corpo feminino Então ele perguntou: "igual ao fulaninho?". Referindo-se a um amigo hetero, que no último Carnaval, vestiu-se de mulher na farra do bloco das piranhas e, apesar de muito muito muito macho, estilo Homem com H maiúsculo, foi eleito a “Musa da Fauna”, pois travestia-se com um macacão "vem cá me chupa todo", apertadaço, a moda tigresa, completamente vazado, com arquinho de girafinha nos cabelos e maquiagem tipo "Priscila: a rainha do deserto". A "Musa da Fauna", como ficou conhecido, arrancou suspiros, elogios e notas dos trausentes nas categorias: “Jesus!!!”, “Minha nossa senhora!!!”, “Caralho!!!” e até Deus não foi poupado “Meu Deus, o que é isso?”. Aí deu nó na cabeça do moleque!!!  E, teve uma hora que ele disse: "mamãe, esquece!". Eu obedeci, já estava mesmo falando um monte de merda, sem sentido algum.

Não é binário, nem trinário, é sem explicação, foda-se! Não tinha o que dizer... Apenas respondia: sim, não e, nem o “foda-se” deu conta. Talvez nos próximos posts, pense em algum outro botão: tipo “caguei”, será?


Enfim, o foda-se te desobriga a ter responsabilidade por aquilo que você não pode controlar, mesmo que em todas as ocasiões você tenha dado o melhor de si. Até que gostaria, mas não depende só de você. Comer depende do apetite do pirralho, a correspondência do amor do seu namorado só depende do desejo ( que deve ser espontâneo) dele, o job depende do gosto e da opinião do cliente. 

E as novas modalidades afetivas, sexuais ou nos figurinos? Estes estão se atualizando mais rápido que o futuro, nem eu, simpatizante que sou, acompanho. Me traz de volta do futuro e me faz desaparecer?  Peço que me atualizem e me orientem sobre o que dizer ao meu filho. Não sei mais quem é quem, o que faz, por que faz e pra quem faz. Ou seja, não podemos ter controle em nenhum dos casos sobre o desejo do outro e, nem tampouco ter entendimento sobre o comportamento social, cultural, sexual, etecetera e tal, então: foda-se!

Foda-se também pode ser traduzido por: “entrega para o poder superior, ou seja, dá mais trabalho pro cara lá em cima já que tu é preguiçoso pra carai”, “não há nada que eu possa fazer por você, então vaza e vai se masturbar”, “que problemão hein, e teu, então vai relaxar e gozar!”,  “deixa a vida me levar ou te levar”, "vai para a casa do pênis",  “segue o fluxo”, “deixa ao acaso”, "vai fazer tempestade em tampinha de xarope", "vai viajar num container de maionese", há tantas variações de significados. E, na interpretação mais profunda (na minha opinião)  e mais real de todas: foda-se = vai se masturbar (só assim podemos nos foder) = ter orgasmos = momentos de grande prazer na vida.

Então, no ruim de tudo, mesmo você achando que a pessoa que te disse isso quer o seu mal, ela está te estimulando a fazer algo de bom pra si mesmo e por si mesmo. Quer maravilha maior que essa? Então passe a dizer mais "foda-se" para as pessoas. É realmente terapêutico, principalmente para as anorgásmicas, são as que mais precisam se foder.

Se concorda, marque sim (     ). 
Se achou trash, faça uma cruzinha aqui no não (     ). 
Se nada disso te contemplou, então FODA-SE (     )!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres e roscas


 Gosto de acordar no dia 8 de março e observar o que a data significa em cada rosto, em cada aparente expectativa, tola ou nobre,  no íntimo de cada coração feminino e mais, no ato de parabenizar de cada valete.


Enquanto passava pelo Largo do Machado, apressada para o trabalho, ouvia um homem com uma caixa transparente gigante na cabeça, gritando: “quem vai comer a minha rosca?”, “acabei de tomar banho e a minha rosca tá limpinha!”, “vem que a minha rosca tá pegando fogo”, “pega aqui minha rosquinha” . E, lá se foi o homem que ofertava rosca pela calçada do Flamengo. Ele gritava e cantarolava oferecendo por toda a parte a sua rosca, enquanto homens e mulheres riam, olhavam e comentavam.

No meio disso tudo, homens parabenizavam as mulheres, distribuíam rosas, bicicletas entregadoras de flores passavam por todos os lados e mulheres com buquês de flores nas mãos circulavam pelas ruas, com uma pitada de glitter, estampada em sua autoestima.

Penso que muitos e muitas nem sabem o que a data significa, que os “parabéns” do frentista que abasteceu meu carro, do porteiro do meu consultório, do meu dentista, dos meus amigos é um mero ato agradador sem significado, pura publicidade. Alguns nem lembram, sequer mencionam algo sobre a data. Tem horas que dá vontade de pedir pra parar o mundo pra descer dessa merda...

E eu honestamente fico dividida! Gosto dos galanteios masculinos (que mulher não gosta?), mas quase não me aguento, de formigamento mental,  para perguntar se as pessoas sabem da história das mulheres que viraram "churrasquinhos", carbonizadas em uma fábrica pela luta por condições dignas de vida e trabalho. Elas só queriam reinvidicar pela diminuição da carga horária de 16 para 10 horas, equiparação salarial em relação aos homens e um tratamento respeitoso no ambiente de trabalho.

Caramba, é por isso que a data existe!!! Por causa dessa desgraceira toda, resultado de uma manifestação reprimida com total violência, em 1857, no dia 8 de março, em Nova Iorque. E, essa história não é bonita como as pessoas fazem parecer!!! 130 mulheres operárias de uma fábrica foram brutalmente assassinadas, sem chances de qualquer negociação pelo direito à vida!!!

Pois é, acho que a data é especial sim, em memória das que lutaram por causas nobres antes de nós e deve ser celebrada certamente, mas com a consciência de homens e mulheres que sabem o motivo da celebração. Que conhecem no cotidiano de suas relações, a alma de cada guerreira (carbonizada), contida em suas namoradas, esposas, mães, amigas, filhas ou simplesmentes damas trausentes nas ruas; que demonstram em seu jeito de agir, no seu tom de voz, em seu modo de expressão; o dom da renovação, as marcas da luta, a sensibilidade que acolhe e as lágrimas que curam, que fazem a diferença na vida de qualquer ser que conhece uma grande mulher.

Ser mulher é ser dezenas de papéis, é usar colar e anéis, é não usar nada, é poder usar tudo, é ser modelo, é ser fotografada nua em pelo sem os seios, é amar flores, é ter TPM, é acalentar as crianças, é pintar as unhas de vermelho, é roer as unhas, é reclamar do elogio ou da falta dele, é brigar com o corpo, é fazer as pazes com a mente, é fazer charme sexual, intelectual, é se desenvolver no plano espiritual, é fazer lipo, é engordar e fazer a campanha pelas baleias, é ter fé no ser humano mas duvidar da vida, é gostar de andar descalça na areia, é curtir andar de salto alto, é ser pura contradição, é contradizer o seu próprio puro ser, é tudo isso e acima de tudo é exalar no olhar, no seu modus operandi a força capaz de regenerar pessoas, fazer valer ideais e transformar toda uma sociedade.

Parabéns aos homens e mulheres que sabem o PORQUE celebramos esse dia, o resto, o resto é rosca!!! Receber ou dar os parabéns sem significado é como publicizar, aos gritos, algo estereotipado, como o vendedor de roscas... que, ao menos é muito, muito engraçado.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Entrega


Se me queres bem
Mas não me tens sempre
Te quero também sem amarra nenhuma

Mas que droga de sociedade
Que produz subjetividades
E diz que as almas tem que virar apenas uma

Gosto de dizer o que é bom pra mim
Porque o mundo é feito de diversidades
E não cabe imposição alguma

Então deixa tudo como está
A gente se encontra por espontânea conexão
Já que é suficiente quaisquer desejo que nos una

Quanto mais livres
Mais amarrados estamos, sem planos
Arrisco dizer que é um intenso amor que se aventura

Só não o chamo de amor perdido
Porque o encontrei
Porém bandido, me assaltou por desventura

Também não diria que é amor realizado
Pois parece não querer ser publicado
De toda forma me sinto tua

Por isso fico toda nua
Isso, fico toda nua!
Fico toda nua.
Toda nua...
Nua, tua, toda.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Do apogeu à apneia, o amor está puto!

O amor está puto! Ele vive uma síntese perturbadora nos dias de hoje. Os desejos se colocam em justaposição ou em contraposição. A “falta de tempo” como justificativa e a clara indisponibilidade emocional, condição offline daqueles que assim se colocam X os disponíveis e generosos que colocam a sua autoestima em queda livre, esperando que o outro mude o seu status para online e assim se conecte numa relação.

O amor está puto! Uma parte do amor é generosa e aceita a fome como condição de subsistência, a outra é masoquista, sofre e permanece faminta. Ainda assim, ele insiste em existir, não sabemos até quando.

O amor está puto! Condenado a viver pra sempre, embora se limite com a vida curta, o amor quer um último recurso. Não sabe bem o que fazer nos tempos modernos.

O amor está puto! Assim, entrou em colapso e, desesperado, sem falta de cuidado, sentou e chorou abraçado com a tristeza. Lamentou por ter sido tratado com tanta falta de gentileza e ausência de reciprocidade.

O amor está puto! Solitário, ele decidiu partir, mas não antes de procurar compreensão na razão das palavras. Burro? Não, não é. O amor é sábio, ele não é de graça, ele quer disponibilidade, carinho, atenção e reciprocidade, embora muitos insistam em dizer que ele é totalmente gratuito e incondicional. Então, voltemos a busca pelas palavras que possam socorrer o amor.

O amor está puto! E eu, particularmente, a autora desse texto, adoro brincar com as palavras, elas exalam sentimentos e tem vida própria na mensagem que meu cérebro envia para as minhas digitais. Elas dançam e rodopiam na minha cabeça despretensiosamente, da mesma forma que dizem por aí que sou escritora. E eu vou organizando cada uma delas delicadamente na tela do computador, enquanto afoitamente as digito. Coloco pra lá e pra cá, edito, busco outros significados e lá vão elas, redefinindo, desenhando outros código na minha cabeça e na dos meus leitores. Às vezes, um palavrão é insubstituível e nada daria conta de manifestar o que amor está sentindo, por isso ele está tão desbocado.

Afinal, o amor está puto! Então, procurou a letra “A” no dicionário, tal onde mora catalogado entre outras diversas atribuidoras de significados e significantes. Encontrou algumas palavras vizinhas que pudessem oferecer sentido a sua falta de sentido: apogeu, apodrecer, apoderar, apocalipse e apneia.

O amor puto então, atingiu seu auge, passou do timing, tomou posse e suspendeu a respiração, sufocou.

O amor continua puto! Diante de tais palavras, sucumbiu asfixiado de tanto egoísmo e hostilidade a sua volta. O amor pela primeira vez se viu covarde e, é claro, puto!

Do apogeu à apneia, o amor só queria um pouco de poesia. Quem sabe em outro lugar, algum dia. Por enquanto o amor só sabe que está puto e que, a partir dos encontros é que ele se transforma e assim, modifica o mundo.

O amor sabe que é dele que podemos extrair o melhor material que constrói a nós mesmos e consequentemente a um mundo melhor, por isso ele está tão puto!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Não há como voltar a ser como antes

Fui tua, foste meu, que mais queremos?

Ainda somos talvez por ontem ou daqui a dois segundos, algo que não sabemos: o que desejamos um no outro, o que queremos um do outro, as linhas de fuga de duas vidas que seguem lado a lado dispostamente atraídas. Pra que, por que, pra onde, como?

Uma mulher e tampouco um homem, não navega nunca no mesmo mar novamente, muitos peixes, seres viventes e banhistas mergulharam nessas águas, modificando os mares e os mergulhadores. Pitágoras já dizia: "um homem não pula duas vezes no mesmo rio". Nenhum dos dois é mais o mesmo depois da aventura do mergulho. As águas do rio passam e o homem se transforma. Então, pra que insistirmos em sermos como éramos antes? Não seremos!

Devemos aprender a gostar de ser como agora, depois de tantas experiências, mergulhos e aventuras. Esse é o aprendizado estruturante da vida, com todas as suas delícias e frustrações.

Pessoas me procuram em meu consultório me pedindo implicitamente em suas queixas: "eu quero ser como antes" e elegem determinada época e situação de sua vida, interpretada agora como feliz.

Eu sempre frustro as pessoas com as quais trabalho e convivo, a fim de ajudá-las nessa reedição. Eu digo um "não" estruturante: "situe-se, essa missão é simplesmente impossível no tempo e no espaço."

Não sejamos idiotas e não vamos agir como dois. Se você por acaso conseguisse ser como antes, o resultado trilhado por este caminho seria exatamente o mesmo, como agora, um ser frustrado a minha frente pedindo pra retroceder no tempo e no espaço. 

Então eu convido : "Quer aprender a usufruir do "ser" como agora?" "Quer tornar-se 'vir- a-ser' depois de antes e de agora, algo novo?"

Construo o meu caminho junto com aqueles que o cruzam, mais ou menos assim: 

Para ALÉM do cogito, o impensado
                       das experiências, o transcendental
                       do planejado, o inusitado!

Eu quero! Vem comigo inusitado, aqui tem espaço pra você! A nossa memória pode ser uma  interessante ilha de edição ao invés de ressuscitarmos um cemitério inteiro de tudo que não nos serve mais, contaminando todas as nossas novas experiências. 

domingo, 12 de junho de 2011

Agora nada!

Eu sabia que seria intenso me entregar
Eu sabia que seria intenso
Eu sabia que seria
Eu sabia
Eu queria ser amada profundamente
Eu queria ser amada
Eu queria
Eu apenas vivia com os sentimentos a flor da pele
Eu apenas vivia com os sentimentos
Eu apenas vivia
Eu morria de vontade de amar de novo
Eu morria de vontade de amar
Eu morria de vontade
Eu morria
Eu sonho em algum momento renascer
Eu sonho em algum momento
Eu sonho com alguém
Eu sonho
Nada agora parece ter sentido pra mim, tudo está vazio
Nada agora parece ter sentido pra mim, tudo está
Nada agora parece ter sentido pra mim
Nada agora parece ter sentido
Nada agora parece ser
Nada agora
Nada agora
Nada
Não se afogue...

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Urbanita



Urbanita caminhava pela cidade procurando flores, poesia e alma
Mas somente encontrava coração duro, heresia e ausência de calma
Urbanita queria viver integrada à natureza
Mas se surpreendia com tamanha destruição e avareza
Urbanita desejava um pouco mais de vida
Mas o que via era a imitação de uma estátua viva
Urbanita adorava correr com os lobos
Mas por infortúnio acabava se deparando apenas com tolos
Urbanita não quer mais ser habitante da cidade selvagem
E almeja ser na floresta a mistura daquela paisagem
Urbanita se perde às vezes em desventuras
Mas certamente tem sabedoria para usufruir de suas melhores aventuras
Urbanita não quer mais receber apenas migalha
Porque sabe que merece o amor pleno ou o sentimento que o valha
Urbanita desperta!
É só deixar a porta aberta...

Um dia...

Um dia dei risadas até a bochecha doer 
No outro os olhos cerraram de tanto sofrer
Um dia não encontrei palavras para expressar a dor
No outro meu corpo manifestou a falta de amor
Um dia acordei e as minhas células haviam se degenerado
No outro dormi e os cabelos já tinham crescido de novo desgrenhados
Um dia me revoltei imensamente por não ter um filho
No outro lutei vorazmente por sua vida que esteve por um fio
Um dia acordei e visitei meu pai
No outro adormeci chorando seu luto pela vida que se esvai
Um dia fui a filha do meio
No outro senti saudades do irmão que se foi e anestesiei a dor que veio
Um dia amei alguém desmedidamente
No outro chorei a sua falta de entrega compulsivamente
Um dia agradeci por todo o amor que sinto
No outro lamentei profundamente por ele não ser correspondido
Um dia o sol estava a brilhar
No outro a noite não tinha luar
Um dia acordei triste com o fim
No outro brindei alegre ao novo início
Um dia fui tão feliz que o brilho dos meus olhos
Acendia lâmpadas e pedia bis
Em outro minha fênix incendiada ao chão
Desfalecia em meu corpo ardendo em febre de tanta solidão
Um dia sentia a vida pulsar intensamente
No outro, ensandecida, a memória se foi lentamente
Um dia abri os olhos e lá ainda estava a minha vida
No outro os fechei e não mais abri, era chegada a hora da despedida
É por isso que sempre digo: a vida é tão hoje e tão curta
Curta tão somente hoje o que amanhã já se encurta
Hoje é o eterno, amanhã talvez seja só saudade
Desperte-se antes de adormecer, aproveite antes de acordar
Um dia sonhamos com uma vida
No outro a vida é um sonho

domingo, 3 de abril de 2011

Quero, logo vivo!

Ultimamente ando um tanto confusa, meus sentimentos estão realizando um debate por aqui. Coisas do amor, existe um nó dentro de mim...

Sabe, conheço pessoas que conviveram com seres ditadores, que já se foram nas suas vidas, mas a ditadura, a instituição prisional, o próprio algoz, continua dentro delas. Elas continuam a viver numa prisão, só que agora sem celas.

Mantém valores e atitudes que correspondem ao seu tempo de institucionalização, a submissão ao ditador e, esquecendo da dor de ser objeto do desejo do outro, muitas vezes se tornam déspotas, querendo submeter outros ao seu desejo. Assim, passam a praticar o despotismo a que foram submetidas.

Essas pessoas perdem aos poucos a conexão com as suas emoções, se despersonalizam e congelam sentimentos. Certamente essas reações ajudaram a sobreviver aos tempos de prisionização. O problema é que a prisão é reproduzida a cada agenciamento das suas relações, mesmo agora em liberdade.

Lamento tanto por aqueles que cumpriram pena apenas por sua omissão. Seu erro foi somente deixar de querer e deixando de querer deixou de viver os seus desejos, passou a desejar o desejo do outro...

Tão bom admirar a sua criança acordando e dizendo: “Mamãe o dia já chegou, olha, tá chovendo, quero colocar as minhas botas e pisar nas poças de chuva pra espirrar água por todo lado e fazer pleque pleque!”

Tão fantástico roubar os sorrisos de todos os seus amados amigos e ser chamada por um deles, aos risos, de cleptomaníaca!

Tão mágico amar intensamente e poder dizer isso, sem ser julgada, ao mesmo tempo que se é correspondida!

Tão simples se deliciar com pequenas idiotices do amor, como ver o amado se espreguiçar pela manhã, fazendo movimentos de um boneco na neve, fechando e abrindo braços e pernas, deitado na cama.

Tão incrível rir sozinha frente as mensagens inusitadas no celular, daqueles de quem se ama.

Tão maravilhoso se emocionar com o próprio trabalho e poder se conectar com as lágrimas e sorrisos daqueles para quem e com quem se trabalha.

É isso! Sem prisão, sem celas, sem clandestinidade, quero meu coração pulando do peito (como sempre), meu pulmão inflando com toda a força, meu sangue ardendo nas veias e meu cérebro pulsando mais rápido que a luz.

Quero intimidade, calor, magnetismo, mistério, amor. Por que?

Sem isso, prefiro a morte em lugar da institucionalização. Meu desejo é a minha vida, minha liberdade é o meu desejo.

Minha emoção é tudo que tenho, o resto, o resto mesmo, são conexões, instituições...

A vida é tão curta e tão hoje, desatei os nós... eles não me servem pra nada, eu não vivo em instituições.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Mulheres Vermelhas


Pois é, em nome do Dia Internacional da Mulher, eu comecei a escrever um poema que tinha contido uma poesia, que emocionava e tocava a sensibilidade. Mas, quando comecei a escrever a estrofe que fazia referência as 130 mulheres que foram queimadas nesse dia, lutando por direitos humanos, mais especificamente pela redução da jornada de trabalho de 14 para 10 horas por dia de trabalho, pela equidade salarial em relação ao trabalhador homem e pelo direito a licença-maternidade, a poesia sucumbiu, eu me indignei (pra ser mais sincera eu me emputeci) e o que seria um poema certamente virou um editorial militante, bem vermelho, manchado do sangue derramado nessa luta.

Nesse momento, lembrei-me que estou devendo um post para uma amiga, na verdade uma mulher guerreira que eu muito admiro. É certo que muitas das minhas amigas e clientes serão homenageadas e terão identificação com os temas abordados, certamente todas são minha fonte de inspiração, mas promessa é dívida e eu vou pagar o post que devo, principalmente porque renascer de um CTI, voltar a andar e retomar a vida plenamente é só para raras almas ou melhor, somente uma mulher vermelha é capaz disso. Eu devo esse presente a ela. Aliás eu devo esse post a todas as MULHERES VERMELHAS, incluindo é claro, a minha mãe, minha primeira referência de mulher vermelha.

Então, há alguns anos atrás, Karla (a mulher vermelha que renasceu e inspirou esse post) disse que as mulheres tem cores e que algumas são vermelhas e outras são rosas. Achei esse papo duca, muito interessante e pertinente. Entre umas cervejas e outras na época, ela contou-me que o desejo dela na verdade era dar origem a um livro, com esse título. Disse-lhe que escreveria para ela, aliás por todas nós esse seria um livro necessário. O livro ainda não saiu, mas o post, já está publicado.

Bem, ela definiu a mulher rosa como aquela que se coloca quase (ou totalmente) de forma virginal, desprotegida, anunciando necessitar de cuidados e proteção, embrulhada num papel de florzinha com fita cor-de-rosa, algumas com pluminhas e paetês em cima. Elas choram quando querem algo, amansam a voz quando querem manipular uma situação, colocam o dedinho na boca e planejam estrategicamente com seu lápis cor-de-rosa as jogadas da vida, fazendo de cada pessoa e situação uma pecinha do seu quebra-cabeça. Elas são vítimas de tudo e é impressionante a insensibilidade dessas “almas sensíveis” no tocante ao sentimento alheio. Somente elas sofrem. Freud as chamaria de histéricas. Para elas sempre a redenção e para os outros o alçapão. Elas deveriam realizar uma himenoplastia (só que no cérebro) freqüentemente para, desta forma, operar plasticamente a reconstrução do seu cérebro para que ele se torne mais flexível, sem ficar preocupada com essa aparência “virginal/angelical” que faz questão de bancar. Certamente não era essa estirpe de mulher que estava contida na fábrica que foi incendiada no dia 8 de março de 1857, nos Estados Unidos, em Nova Iorque, quando foi carbonizada uma grande e poderosa amostra de mulheres vermelhas, que vieram para mudar o mundo e mudaram.

A mulher vermelha não usa máscaras e rejeita platéias, ela aceita o progresso ao invés da perfeição, porque sabe que não é perfeita, porque se admite inacabada, ela é principalmente uma mulher resiliente, ela perde agora, renuncia aquilo que não for verdadeiro, mas não permite que a sua vida perca o sentido. Tal como se diz na física, ela é capaz de levar uma porrada imensa e continuar a existir em sua essência, sem se desintegrar, sem vender a alma para qualquer fdp ou qualquer causa indigna. Ela se parece com uma mola, mesmo sendo massacrada, retorna a sua forma inicial. Ela não abre mão da sua dignidade, ela tomba, claudica, se aperta e levanta pra recomeçar a luta, quantas vezes forem necessárias. As mulheres vermelhas se parecem com verdadeiras fênix, elas pegam fogo e renascem das próprias cinzas.

Se por acaso a mulher vermelha for aniquilada, permanecerá viva na memória de todo um povo ou pelo menos do grupo a qual pertence, porque suas marcas estão contidas na história que construíram, como foi o caso de Madre Teresa de Calcutá, irmã Dorothy, Eva, Maria Madalena, as 130 operárias dessa fábrica e muitas, muitas outras grandes mulheres vermelhas anônimas, que devem ser homenageadas por nós todos os dias. Elas sim amamentam toda a ninhada de uma nação de idealismo, perseverança e muitas, muitas lições de força, generosidade, solidariedade e altruísmo, como muitas de nós fazemos em nossos pequenos territórios, simbólicos públicos com quem trabalhamos e pessoas do nosso entorno, das nossas relações, no cotidiano, a cada dia.

Não há mulheres negras, amarelas, brancas. Há mulheres vermelhas e rosas. É a sua conduta, a sua atitude, a sua permissividade ou não em nome de abusos, prendas, ofertas indecorosas ou qualquer outra isca, que vai determinar a sua cor, que vai determinar quem é você, que tipo de mulher você deseja ser e como você deseja estar no mundo.

A mulher vermelha não se vende, não se compra em lugar nenhum, ela é criativa, ela arruma as soluções para os seus perrengues, ela mantém a sua conexão com o seu lado selvagem, ela é mulher em suas múltiplas competências e assume também as suas diversas deficiências. Ela não quer viver de aparências, até porque sabe que o valor material um dia vai perecer e por isso a carne ela não quer enaltecer, embora os homens insistam nesse dilema.

Aos homens que não entendem a diferença, façamos uma análise comparativa, eles querem a bunda durinha mas não querem o cérebro de amendoim. As mulheres vermelhas carregam o mundo, as mulheres cor-de-rosa querem ser carregadas. As mulheres vermelhas são sushi e sardinha frita no mesmo prato, plural, como comida à quilo. As mulheres rosas são sempre bibelôs enfeitando a estande. Eles querem o cérebro poderoso da mulher vermelha e o coração ardente e determinado, mas temem se relacionar com tanta intensidade. Eles são atraídos pela carcaça da mulher cor-de-rosa, pela sua dramaturgia, mas se decepcionam com a sua pseudofragilidade, dependência e falta de autenticidade . Óh homens, eles não sabem o que escolhem. Deixem que descubram aquilo que porventura os façam amadurecer em suas emoções. Deixem que descubram por si só, em suas próprias escolhas, nos efeitos dos seus corações. O Carnaval vai passar, o verão está por findar... sobrará o outono, depois o inverno, todo ano é assim... As peles das mulheres vermelhas e rosas estarão cobertas, só restarão a conversa, o bom vinho, o aconchego, a proximidade das almas, os programas onde os corações parecem ficar mais pertinho um do outro...

As mulheres vermelhas querem e lutam por verdadeiras causas na vida, elas são causas verdadeiras na vida de alguém e NÃO, apenas conquistas...

sábado, 5 de março de 2011

Carnaval, adeus à carne

É Carnaval, e a folia?
Sinto a imagem da agonia
Parece sina, não combina
É certo que um dia
Devo retomar a poesia
Que seja logo
Essa profundidade que me alucina
Quero a minha alegria
Entendiante esse meu pensamento complexo
Essa angústia esquisita
Nada tem nexo
Me consome noite e dia
Meus sentimentos profundos
Tenho medo da loucura
É o tal do amor, é o amor
É por isso que não queria
É Carnaval, é Carnaval...
Esquece a dor
Se orienta pela sua sabedoria
Curta a folia, a folia
Tomara que não seja tudo heresia
Nesse contra-senso absurdo
Meu ouvido está surdo
Meu sentimento está mudo
Penso em tudo
Tomara que caiam as máscaras
É preciso seguir, maravilhosa e misteriosa
Na passarela, eu minha poesia e minha ira
Há rumores
Novas flores
Quem sabe sagrados amores
Sem fim
Fazem de mim
Refém nas montanhas
Das minhas manhas
Em cada manhã
Vejo um novo amanhã
Cadê você?
O que restou além da carne?
Carnaval é marcado pelo "adeus à carne"
Ou "carne vale"
Por que me permiti escarnecer?
Tempo de renascer
Às favas todas as fantasias e heresias
Muitas caras para sua coleção
Não sou mais uma
Se não é plena a sua emoção
Não me assuma
E a folia, e a folia? É Carnaval!
Me perder?
Parece que não faz mal
Não me peça para amar
Além do amor
E apesar da dor
É Carnaval, é Carnaval!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

nos olhos dele

agora eu me reconheci em um território que desconhecia
que ouvia pulsar por dentro
meu lado do desejo
me retorcia até o avesso
eu me apertava, me apertava contra mim
apertava meu corpo contra outro
mas não encontrava a mesma essência
procurava a conexão que me atraísse
em conteúdo feito igual ao meu
buscava a extremidade de um olhar
a intimidade do cheiro ao farejar
uma voz que se lançasse dentro das minhas entranhas
como simples eco da minha lascívia
agora grita a nossa devassidão
tudo é propenso entre nós à imensidão
queria sentir a ressonância dos meus sentimentos fortes
minha perspectiva louca
minhas histórias desarticuladas
meu corpo delicado
e eu ansiosa, ansiosa, ansiosa...
agora te reconheço
dono das minhas noites
inspiração dos meus dias
vives o tempo todo dentro de mim
mesmo que estejas em outro lugar
nossos intensos, trêmulos e lânguidos momentos
apenas sinto, me transporto para um outro mundo
meu sangue ferve
minh´alma bebe
minha mente delira
tenho febre e medo
dos muitos milhares de incríveis acontecimentos
que povoam a minha mente e
percorrem a minha alma quando estou com você
só falta a explosão de um gesto mínimo
que se manifesta em três palavras
nenhuma pressa
rimos muito , vejo estrada, sol e chuva
tudo que precisamos
mas como somos contradição
outro dia mesmo juntei todas as minhas forças
contra todo o meu desejo
e lutei muito para não dizer eu te amo
eu hein!
não fosse seus olhos...
é preciso muito cuidado em noites claras assim...
dizia Sartre, o filósofo, que o olhar do outro me confronta com aquilo que quero esconder de mim mesma...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Dois


Dois em um sempre pode transcender
Dois segundos algo pode nascer
Dois olhares se cruzam através de almas famintas
Dois meses podem mudar duas vidas
Dois desejos podem se encontrar
Dois é pra equilibrar
Dois dá pra dançar
Dois é bom mesmo quando cada um é inteiro
Dois compartilham com intensidade
Dois praticam a sua vontade
Dois feitos da mesma essência
Dois com tanta transparência
Dois pés no chão
Dois com asas da imaginação
Dois não é ímpar
Dois é par
Dois é pra sonhar
Dois é tempo de amar!

sábado, 22 de janeiro de 2011

Juca Vitória

Turfe é o esporte de origem britânica que promove e incentiva corridas de cavalos. Pois é, ouvindo a história do Juca Vitória, um cavalo de corrida que virou personagem em uma história de amor, andei refletindo sobre as convergências desse esporte com a prática real das relações sexoafetivas.

Assim como os relacionamentos amorosos, o turfe é um dos esportes mais tradicionais do mundo. Envolve a criação e treinamento do cavalo, competição e apostas. Semelhante ao amor, que envolve a criação do vínculo, o treinamento da relação (sim, se a relação não for muito bem adestrada no tocante ao reconhecimento de quais são as minhas neuroses, identificação de quais são as suas paranóias, posicionar o que é nosso e a maluquice que está entre nós, situar os limites e respeitar os espaços, a fusão detona o fim derradeiro de duas almas que deveriam ser inteiras e não metades, aí tudo vai pro carai), muita competição com os indíviduos não envolvidos diretamente na relação (os competidores externos querem disputar o prêmio dessa corrida, e putz tem muito fura olho em volta) e muitas, muitas apostas (como saber se você vai perder tudo, ganhar parcialmente ou levar o grande prêmio, que é ser feliz?).

Então, posto isso, uma vez era um casal um tanto intrigante e interessante. Ele questionava os desafios dessa relação e até que ponto a distância geográfica dos bairros distintos e distantes onde moravam e a falta de grana poderiam comprometer a conquista do grande prêmio. Era muito perrengue para superar. Ela infelizmente também não tinha como suplantar muitos dos obstáculos. Os dois possuíam uma proposta em comum: queriam ficar juntos.

Em uma sexta-feira qualquer, ele tinha R$10,00 na carteira, que revertidos em combustível daria para chegar até a casa dela. Mas e a volta? Ele pediu socorro a ela, que também não tinha um puto no bolso. Ele arriscou, pensou alto e apostou!

Bem, analisou ele “com R$10,00 eu vou até a casa dela e não volto, então nem fudendo vai rolar da gente se ver nessa sexta”, essa era a única certeza. Optou então pela incerteza: “VOU APOSTAR TUDO NO JUCA VITÓRIA!” Então ele apostou tudo que tinha, seus valiosos R$ 10,00 no Juca Vitória, um simples e inexpressivo cavalo que concorria nessa competição, mas que por trezentos metros a mais que não tinha no páreo anterior, lhe valeu só o placê. Entre as várias possibilidades de apostas, ele escolheu apostar no vencedor "também conhecido como ponta, que é a aposta direta no cavalo (suposto) ganhador”.

Às vezes a vida nos convida a apostar tudo em algumas situações, que em princípio não daríamos nada por ela. Algo intuitivamente nos diz que vai valer a pena. E no esporte amoroso não é diferente. Mesmo suado, difícil e complexo, precisamos conferir. É quase uma teimosia silenciosa.

E cruzam o destino final, como diriam os locutores de hipismo e acabou indo para o photochart, ou seja, a decisão foi baseada no olho fotográfico da corrida. Lá estava ele, o Juca Vitória, com o focinho apontando como vencedor e os 10 viraram 90 super viáveis Reais.

Agora, páreo a páreo com a realidade fora dos hipódromos, quantas várias possibilidades de apostas temos na vida, nos relacionamentos possíveis? O que nos leva muitas vezes a apostar em um único vencedor ou placê (se a sua aposta chegar em primeiro ou segundo lugar), ou na dupla (o apostador seleciona duas opções), ou na trifeta ou na quadrifeta, três ou quatro apostas simultaneamente? A vida nos oferece tantas possibilidades de acordo com a nossa disponibilidade, intenção e intuição... Difícil é saber o que fazer. É páreo duro, fazer uma escolha significa deixar de lado outras que podem nos parecer bastante atraentes, como diria Sartre, sábio filósofo existencialista.

Sem mais remates ou paradas, independente das apostas tradicionais ou do contrato verbal não informal entre duas pessoas ou mais, o que está no jogo da vida são as apostas.

Nosso apostador ousado no Juca Vitória, garantiu R$90,00 apostando tudo que tinha no seu candidato a vencedor, nove vezes o valor da sua aposta. Foi ver a amada e ainda saíram juntos para boas risadas e muitas cervejas geladas, arrematando o seu prêmio principal, ela. Vitorioso duas vezes, só conquistou tudo porque arriscou tudo.

E hoje?

Hoje eles estão casadíssimos e diga-se de passagem me parecem muito felizes, senão todos os dias, quase todos… Afinal, só reconhecemos a lua cheia e linda porque conhecemos a lua minguante. Eles certamente sabem disso, passaram por alguns críticos desafios, saboreiam o doce porque já experimentaram o amargo. Creio eu, com grande risco de me equivocar, que a felicidade deve ser confrontada de vez em quando com algum pesar, do contrário dificilmente é valorizada.

Assim é a vida, o amor é assim… Uma aposta diária, um risco a cada hora, um abismo de incertezas a cada segundo… Os apostadores transformam as certezas inertes em incertezas a cada aposta... Dizem que a incerteza é o que traz inspiração... Ouvi dizer por aí... E aí vai apostar?

Ass. Juca Vitória, da mesma linhagem do “Inusitado" http://umavezerahistoriasdegente.blogspot.com/2010/12/inusitado.html

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Amizade...

Amigos são como pão
São sagrados e sustentam o nosso chão
Também simbolizam o vinho
Companhia quando a gente se sente sozinho
Eles representam a partilha
Todo o avesso de uma vida
Companheirismo sem egoísmo
Aceitação sem condição
Partilha de todo dia
Quando tudo parece falhar
Eles estão lá para nos ajudar
Quando nada parece o suficiente
Eles seguram a onda da gente
Suportam a bebedeira
E aceitam toda a nossa besteira
Porque pelas nossas andanças
Todos nós fazemos um monte de lambanças
Às vezes os amigos entram na sintona da nossa dança
Outras ficam com cara de cachorro que caiu da mudança
Nem sempre presentes todos os dias
Mas sempre aparecem nas noites mais frias
Quando o nosso coração está aquecido
Eles comemoram com um grito
Diante do nosso pranto
Eles sussuram palavras doces e nos cobrem com seu manto
Mas também o carinho pode ser em forma de mordida
Quando eles percebem que não estamos valorizando a vida
Amigos ficam bravos e também fazem estragos
Depois nós nos perdoamos e nos abraçamos embriagados
Nada é capaz de abarcar o conceito de uma amizade
É bondade, é divindade… É solidariedade
É amor fraterno
Sem compromisso de ser eterno
É liberdade e não está aprisionado por nenhuma verdade
É simplesmente cumplicidade!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Novo ano sentindo como os lobos…

Um ano se vai e outro vem, com ele costumamos renovar os nossos votos de esperança, de luz e de energia para mais um ano anunciado.

Pois é, o que muda?

O ano ou a forma como podemos enxergar, sentir, cheirar, ouvir, tatear, intuir, provar, o novo que se aproxima?

Realizamos balanços infinitos, ponderamos as coisas que fizemos, o que queremos mudar, refocalizamos os projetos, reafirmamos alguns contratos valiosos e cancelamos outros que não nos servem mais, renovamos alguns relacionamentos que nos enriquecem e deixamos outros, os que nos subtraem, em estações diferentes. Celebramos as novas conquistas ao mesmo tempo que vivemos o luto do que ficou para trás. Assim é a vida…

O novo está todos os dias e segundos a nossa frente, dentro de nós, em todo lugar e a qualquer instante, mas muitas vezes não estabelecemos contato, não estamos dispostos a olhar diferente para o mesmo que se apresenta. O mundo não muda, nós é que mudamos a conexão, a concepção, a interação com as pessoas e as coisas.

O mesmo céu estrelado e brilhante, a mesma lua escondida e misteriosa atrás do morro, pode ser vista, sentida, tocada, com magia, encantamento e amor, ou com solidão, tristeza e temor. Olhar o ordinário e ver, enxergar, o extraordinário é sabedoria para poucos ou para aqueles com anos de estrada com muitas colisões e arranhões a flor da pele, ainda cicatrizando, certamente em contato com o seu lado selvagem.

Ler o cheiro, sentir um olhar, tocar em uma voz que sussurra, ouvir a sensação de uma pele arrepiada, enxergar o som do coração, provar o gosto da intuição é, na verdade a manifestação da integração com os seis sentidos, dádiva muitas vezes mal utilizada na correria que anestesia a todos nós, todos os dias, robotizando nossas emoções, endurecendo nossos corações, ressecando as nossas almas e prejudicando os nossos sentidos.

Para se ter uma ideia sobre o desenvolvimento dos sentidos dos lobos, sua audição é tão apurada que ele pode ouvir a queda de folhas das árvores durante o outono. Sua visão noturna é uma das mais avançadas, seus dentes representam uma das mais poderosas armas. A saliva dos lobos é apropriada para reduzir a infecção bacteriana em feridas e acelerar a regeneração dos tecidos, sua saliva é um bálsamo, seus "beijos curam". Durante a época de acasalamento, os lobos tornam-se muito carinhosos, antecipando o ciclo de ovulação da fêmea.

Nesse novo ano, apenas desejo que saibamos aguçar cada vez mais os nossos seis sentidos. Quisera que todos nós pudéssemos fazer a conexão com a energia dos lobos, principalmente os maus, que tem orelhas bem grandes para ouvir melhor, olhos enormes para enxergar melhor, nariz bem potente para farejar bem, boca com dentes bem poderosos para devorar o mundo com apetite e mãos bem fortes para pegar melhor, abraçar com intensidade.

Chega de princípes à cavalo e princesas encantadas aguardando para serem salvas, com as suas poses superficiais, com seus sentidos artificiais, cheios de perfeição platônica e pretensões irreais. Sejamos simplesmente gente, gente de carne e osso, imperfeita, insensata, incompleta, inacabada, errante, aprendiz, selvagem, que ri e que chora, que sangra, que sente, gente real, de verdade, que se doa e que recebe, que chega junto e que se dá, que tem medo mas que ousa correr riscos na aventura de viver. Gente que vive como os lobos, com os sentidos apurados, sensíveis aos estímulos, que abraçam, tocam, falam, escutam, se arrepiam e ficam lânguidas de desejo, inebriadas de sensações e sentidos.

O que faz a diferença? Ter um lobo em sua vida! Viver como os lobos nessa vida!

Os sentidos, os sentidos aguçados. Ah, os sentidos…

Desejo um 2011 cheio de sentido e de sentidos!

Sugestão de leitura: “Mulheres que correm com os lobos”, meu livro de cabeceira.
O livro de Clarissa Pinkólas Ester, aborda a importância da conexão da mulher com o seu lado selvagem através da análise e redefinição de lendas, contos de fadas e histórias antigas, analisando as semelhanças das características do feminino com a de uma loba. A obra se comunica diretamente com os conflitos cotidianos da mulher, porém todo homem deveria acessar essa bela e selvagem obra.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sobre o amor, ah o amor…



Não me atrevo a entendê-lo
Nem tampouco descrevê-lo
Tento
No momento
Contemplá-lo com muito zelo
É algo transverso
Cheio de verso
Eu não sei bem
Como se tem
Acontece
Não se pede
Só desejo
Ensejo com muito medo
Cá estou
Frio na barriga
Quem diria
Efeito rebote
Me sacode
Outro portal
Sem pedestal
Sei lá, sem rumo
Sem noção nem direção
O que é? O que quer?
Só sei que bem- me-quer
Na dúvida me entrego
E a chance?
De romance
Quantas temos…
Vale a pena
A  alma não é pequena
Vambora
Faz da vida um poema
Entra em cena
Vive, se joga
Ri e chora
Porque um dia
Ah um dia qualquer
Nem precisa ser um momento de mal-me-quer
As cortinas se fecham
As luzes se apagam
E tudo que foi e aquilo que será
Um dia se vai, um dia findará
Ah… o amor, hum… o sexo!
Nem sempre é tudo desconexo
Quanto a mim
Tenho vivido de tanto rir
Já não sabia como era ser assim!
Afinal, fez macumba pra mim?

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Inusitado

não esperava por isso nem por nada
apenas caminhava
sozinha impaciente ciente
muitas vezes com a alma rara
outras com doces desejos
sonhando com intensos beijos

quando nada combina
penso na minha sina
e quando menos imagino
momentos inusitados
gente surpreendente
me sequestra o sorriso

gosto disso
nunca fui muito tentada a andar nos trilhos
eles sufocam os meus brios
mantenho meu charme intelectual
em romper com o que é tradicional

minha vida nunca foi estilo “Doriana”
muito menos se parecia
quem diria
tudo saiu exatamente com a alegria que eu queria
afinal é tudo magia

então pra que me preocupar
com o altar?
se não tenho que me ocupar em fazer par
a surpresa me embala
o desejo me convida
e eu ímpar
somente brindo a vida

amanhã quem sabe
embarco em nova nave
descubro em outro cais
quero mais
e aí, bem... aí
que venha 2011
não preciso saber demais

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Paradoxo de aniversário

Hoje eu chorei

Chorei por todas as ausências, os abraços não recebidos, os beijos interrompidos, as mensagens e ligações que nunca chegaram e que não chegarão mais

Porque hoje é meu aniversário

Hoje eu sorri

Sorri por todos os abraços, o carinho, os beijos, as mensagens e ligações recebidas e que jamais serão esquecidas

Porque hoje é meu aniversário

Hoje eu acordei com uma vontade enorme de ganhar flores, então eu chorei de novo

Porque hoje é meu aniversário

Hoje então no meio do trabalho eu desci e comprei flores pra mim, girassol e rosa vermelha, dentre as minhas preferidas só faltou a orquídea pra completar o trio das prediletas e então, eu sorri de novo

Porque hoje é meu aniversário, eu amo flores e tenho mais motivos para celebrar do que por lamentar. Porque flores marcam os rituais de nascimento, união e morte, então eu estou confusa, porque coisas nascem em mim, se fundem e outras morrem…

Hoje é meu aniversário! Então eu posso chorar e rir a hora que eu quiser, porque hoje é o meu aniversário. E então eu estou estranha, cheia de nada, vazia de verdades, porque aos 37 anos nada faz sentido pra mim, porque hoje é o meu aniversário. Talvez algumas cervejas geladas, um abraço apertado do meu filho e bons amigos ao redor façam algum sentido pela data de hoje. Talvez essa simplicidade seja o sentido da vida... talvez.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Desejo, divagações et cetera e tal

O desejo é um “cara” ousado, sem limite nem regra, que já chega tomando conta do seu corpo todo, da sua mente e sem que você possa decifrá-lo, é arrebatado por ele… Muitas vezes ele é inconfesso, insano, às vezes ele incendeia, outras é doce e raro. Em alguns momentos é lento, perpétuo e outros é denso, intenso. Porém, nunca tem lei e é sempre inexplicável, misteriosamente sem razão. Inexorável, implacável, incontrolável, assim ele é. Podemos não concretizar pela via da vontade, reprimindo as atitudes, mas ele, ele está lá, latente, ardente. Dizem que para se conhecer, o ser humano deveria aprofundar-se em conhecer os seus desejos mais tiranos. Eles são nossos guias anônimos, não confessos, e podem nos orientar ou nos sabotar por completo. Desvendá-los é um processo exigente.

Pois é, eu gosto de ter desejo, amo ser uma pessoa desejante, mas me sinto sem autonomia quando ele se manifesta. De certa forma, desgovernada, capturada por sua sedução, pelo encantamento que o ato de desejar provoca. Ei, isso é sempre uma aventura perigosa, duvidosa, incerta.

É lógico que só desejamos porque há carência, alguma coisa nos falta. Se não faltasse não desejaríamos, seríamos plenos, completos, perfeitos, um Deus. Portanto, desejamos porque somos finitos, imperfeitos, inacabados, incompletos, errantes… Jamais poderíamos saborear o gosto do vinho, tendo a boca sempre cheia dele.

George Bernard Shaw, dramaturgo, romancista, socialista e jornalista irlândes, falecido em 1950, já sabia desde essa época, que há duas tragédias na existência humana: “uma é quando nossos desejos não são satisfeitos; a outra é quando o são.” O cerne da ação da dramaturgia é sempre o conflito.

Quer saber, o ser humano problematiza tudo. Ô serzinho difícil! Se o desejo não é atendido, o filho da puta reclama, se é satisfeito entra em crise existencial. Tudo vira catástrofe. Se está sozinho, quer alguém bacana, interessante. Se está junto com uma pessoa legal, quer sair pelo mundo, se descobrir, analisar o que quer para sua vida. Porra! Ser humano “é muito complicado mesmo”, já dizia o Português do boteco quando mandou salaminho com queijo branco, enquanto havíamos pedido salaminho com queijo prato. Sim cacete, desejo é desejo e não tem muita explicação, queríamos assim, com queijo prato, e.x.a.t.a.m.e.n.t.e do jeitinho que desejamos, sem saber o “porquê”. O desejo não tem lógica, achamos que a química perfeita era essa: cerveja gelada, boa companhia, salaminho com queijo prato e pronto!

Acho que essa intriga em viver é o que me motiva a ser psicóloga, é tudo muito insensato. Tudo pode ser, tudo pode não ser… Tem um pouco de loucura nessa profissão, nessa escolha de trabalhar com esse objeto tão efêmero: o ser humano. A probabilidade das conexões entre as pessoas, a forma como elas se conhecem e se atraem, tudo nesse mundo gera questionamentos e mais ousadia em minhas ideias, tudo ferve em minha mente. Acho que é por isso que escrevo. Eu mesma, sempre efêmera nas minhas discussões, modifico as verdades que acredito a cada nova experiência vivida. O que acabei de falar já se modificou, hã, eu disse isso? Sou totalmente contestável, imprudente e insensata. Às vezes indecifrável até pra mim mesma.

Ultimamente ando muito sem juízo, me permitindo ser desafiada por valores e conceitos que construí pacientemente, para agora, descobrir que essa merda toda não vale nada. Agora estou aprendendo outras coisas, fazendo outras escolhas e experimentando novos desejos.

O problema do desejo é o tamanho, a dimensão e a intensidade dessa falta. Quando a fome é grande, tendemos a idolatrar a fonte de nutrição do nosso desejo, adulterando e divinizando o objeto da nossa fome. Por isso, de vez em quando é importante aprendermos sobre a plenitude sozinhos, tipo acampamento solitário, curtindo montar a própria barraca, cuidando de providenciar a própria comida, de férias dos outros e em conexão com os nossos desejos, saciados ou não, apenas identificando-os, acolhendo-os, ouvindo o barulho das nossas ideias e o eco dos nossos desejos. Passei um tempão experimentando fazer um monte de coisas que eu não costumava fazer sozinha. Viajei sozinha, fui ao cinema só, curti show sozinha e muitas outras coisas comigo mesma. Uma mixagem de medo e coragem, como uma sobreposição e combinação dessas forças num único som, em um novo repertório com novas nuances, tomaram conta de mim. Foi um período sensacional e voltarei a repetí-lo por muitas vezes e sempre. Me senti muito mais forte depois dessas experiências. Assim, andava tão saciada de mim mesma, que nem desejava desejar nada ou alguém. Não tinha fome, tinha juízo.

E agora? Agora esse tal de desejo me convidou pra dançar só pra me estontear. Sim, ando bastante atordoada com esse “cara”. Ele é novo, intrigante, interessante e me faz me sentir desejante e desejada. Gosto do jeito que ele sorri pra mim, com os ingressos na mão, me convidando pra vida. O nome dele? É DESEJO.

Nada mais sei sobre ele. Nada mais sei sobre mim mesma.

sábado, 25 de setembro de 2010

Já temos agenda para o próximo ano

Corre pra lá, depois pra cá, entre um intervalo e outro das funções laborativas, faço as ligações pendentes, lembro de comprar o remédio do meu filho, deposito um cheque no banco, respondo um e.mail, mostro que estou viva nas redes sociais digitais, leio um parágrafo do livro que quero terminar, contabilizo os meses e dias que larguei o cigarro, e... as unhas, não deu tempo, vai ficar por fazer. Ah, faltou ainda um monte de coisas e o dia já começa a dar sinais de que está por terminar e ainda, os cabelos brancos insistem em se expressar logo após a primeira semana do retoque da tintura. Certamente, um monte de coisas serão lançadas para a lista de afazeres de amanhã. 

Fico me perguntando o que é o tempo, como vivemos o tempo? Viajo pensando que ele não existe e nem é vivido, é apenas sentido. Estou envelhecendo, sinto que ele passa por mim e percebo que passo por ele, em alguns momentos nos encontramos. Às vezes não nos alcançamos, nem nos falamos, muitas vezes acho que não o toco, outras esqueço a minha idade. Tem dias que o cumprimento e o abençoo e outros que simplesmente o odeio, nem falo com ele, penso que ele não existe. Tem horas que até sentamos para conversar um pouco, em outros instantes só dá tempo de acenar um "tchau". O que importa mesmo é ter aprendido a não capturá-lo, mas sim a degustá-lo no ato vivido, sentido. Sinto-me muitas vezes como criança, outras com centenas de anos, em alguns fragmentos prepotente como adolescente, como se domasse o tempo. Adoro esse jogo perturbador do tempo em relação aos pensamentos, intenções e desejos. Às vezes tudo está desencontrado e outras bem bagunçado. Dificilmente tenho tudo arrumado, organizado, dentro de mim, no meu tempo e na minha vida.

O tempo para uma amiga no CTI, com a mesma idade que eu, com centenas de histórias e lembranças da infância, com saudades do que vivemos juntas e agora impregnado de compaixão, parece eternizar-se naquele hospital. Se ela estivesse aqui estaria vivendo, imagino, de forma atribulada, eletrizante e eletrizada, como eu, como a maioria de nós. Mas, fato é que está lá, adormecida numa cama de hospital e nós, apreensivos, a esperar por qualquer sinal de melhora, de recuperação. Como deve ser ficar entorpecida, insensível ao tempo que passa aqui fora, sem poder “governar” o seu próprio leme, o seu próprio tempo? Isso cruelmente tem mexido comigo, com a minha noção de tempo e, vem bagunçando ainda mais os meus botões, que já não são muito bem ajustados.

E nós, será que “gerenciamos” de verdade o nosso tempo? Os especialistas em RH dizem que sim, que isso é possível. Fazem apologia à gestão do tempo como se, aquele ou aquela que não consegue dar conta de tudo, é incapaz de estabelecer prioridades. Mas, quais são as prioridades, o que é mais importante para cada um de nós? Dar conta dos relatórios ou perder-se no tempo em um piquenique com o filho em meio aos sorrisos e festejos? Entregar-se ao ócio no fim de semana ou ser o primeiro funcionário do mês? Dedicar uma tarde para escrever uma poesia ou organizar todas as pendências para estar com “tudo em dia” para o início da semana? Curtir a noite ou aproveitar o dia seguinte cedinho com disposição? O dia tem 24 horas, nem um minuto a mais e nenhum a menos para ninguém. Questões, escolhas, formas de viver o tempo... Cada um o vive a seu gosto, de acordo com a sua preferência...

O que é o tempo? A expressão das rugas? A proximidade da morte? Intervalos ou períodos de duração? Ilusão, dimensão, calendário, lembranças, histórias, relógio? Plasticidade, simplicidade, engrenagem, passagem ou complexidade? Quem é esse tempo feroz que não se repete e que anuncia, que cada segundo passado não voltará? Se o tempo não se repete, nós também não. Então, cadê nós? O que passou já se foi, o que é agora já não será mais no próximo segundo, e o que será amanhã? Não sei, mas "Já temos agenda para o próximo ano".

Peraí, eu nem consegui cumprir todas as promessas e projetos idealizados no Reveillon passado e a papelaria já anunciou no cavalete na calçada: “Já temos agenda para o próximo ano”. No shopping, a vitrine enfeitada com árvores, luzes e bolas coloridas de Natal, anuncia que o Papai Noel já está a caminho e com ele o novo ano que se aproxima. Puta que o pariu!!!! Isso é muito sério porque eu ainda nem dei conta de todas as metas desse ano...

É isso, preciso voltar a aprender como era ser criança. Papai Noel, infância, expectativas pueris, experiências inusitadas, desejos simples, vontade de presentes, de viver o presente, a espera de surpresas... Crianças pequenas não tem noção de tempo e aquele que manifestou a loucura pode perdê-la. Talvez as crianças e os loucos sejam aqueles que mais sabem lidar com a vivência do tempo, pois só se dão conta dele como fator limitante e finito, quando o espetáculo acaba , quando a festa se encerra, quando as cortinas se fecham ou quando a vela do bolo é apagada. Enquanto isso, fato é que eles sabem viver o presente de forma infinita.

É bom ser criança ou tornar-se louco, só assim o anúncio: “Já temos agenda para o próximo ano” torna-se insignificante. E daí? As crianças e loucos não estão nem aí para as agendas que já estão sendo vendidas para o ano que vem. Eles não se perguntam se o beijo de hoje tem gosto de "e amanhã como será?". Eles simplesmente beijam com gosto de infinitude. E o abraço termina quando acaba, quando os músculos simplesmente e de forma espontânea desapertam o amasso, que deu laço nos braços e, enquanto isso, os braços estavam eternamente abertos para o outro entrar e depois, para sair, quando assim, fosse da vontade. E tudo isso é de uma beleza sem fim, sem agenda, sem prazo...

Então fodam-se as agendas para o próximo ano. Deixe-me meditar sobre o essencial e o insignificante. Deixe-me sozinha para vislumbrar a fugacidade do tempo e, inseguramente minha própria imagem desconcertante, mutável, fugaz...

E, por favor, deixe-me sem agenda para o próximo ano!!!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Freio ABS, utilize sempre que necessário.


"Parar um automóvel repentinamente em uma rua escorregadia pode ser desafiador. Os sistemas de freios antitravamento (ABS, anti-lock braking system) diminuem o desafio dessa situação muitas vezes enervante. Em superfícies escorregadias, mesmo motoristas profissionais não conseguem parar tão rapidamente sem o sistema ABS se comparado a um motorista comum que conta com esse sistema."

Uma mulher em crise existencial pós término de um relacionamento vivencia algo bastante parecido com a citação acima, até as mais experientes.

Vejamos como funciona. Entender a teoria dos freios antitravamento é simples. Uma roda que desliza (a área da pegada do pneu escorrega em relação à estrada) tem menos aderência que uma roda que não está deslizando.

Se você mulher já ficou imobilizada no gelo ou na lama, sabe que se as rodas (do seu cérebro) estão girando em falso, você não tem tração, não consegue sair do lugar. Isso acontece porque a área de contato está deslizando em relação ao solo, você fica "sem chão", como costumamos dizer. Ao evitar o deslizamento das rodas durante a frenagem, os freios antitravamento beneficiam você de duas maneiras: você irá parar mais rápido de se esvair em lágrimas e fazer merda (torpedos, ligações nas madrugas, e.mails, DR`s infinitas, choques e exposições desnecessárias) e será capaz de mudar a trajetória da sua vida enquanto freia.

Realmente, artigo de primeira necessidade quando precisamos nos dar limites e finalmente convalescer dos acidentes de e no percurso e assim, retomar o rumo e direção de nossas vidas.

Pois é, muitas de nós, com a experiência e sabedoria típicas dos anos de colisões e muitos arranhões, diga-se de passagem, aprendemos a usar o freio ABS.

Passamos alguns momentos desgovernadas e, em outros imersas em experiências desgovernantes. A porrada ou a imobilidade é quase certa quando estamos nessa vibe.

Bem, vejamos como funciona no universo feminino. Essa é uma estratagema que consiste em realizar uma lista das coisas horrorooooooosas que o sujeitinho tem ou tinha (porque agora vc vai enterrá-lo de vez), quando o relacionamento acaba e precisamos esquecer a figura e realizar um nobre sepultamento. Sim, pretinho básico na viuvez mas pô, pode ser aquele curtinho e sensual, de preferência com óculos escuros porque além de fatal conseguimos esconder a cara inchada de tanto chorar. Ficamos de luto mas não morremos, o cara é quem se foi!

Pois é, essa lista em geral é realizada quando realmente nos sentimos como NPP. Isso mesmo: NPP, como dizia uma cliente minha: "Nitrato de Pó de Peido". Quando nos sentimos assim, colocamos o sujeito nas alturas e ficamos lá embaixo com pena de nós mesmas e começamos a acreditar que a figura é o último picolé do verão, a última bolacha do pacote ou a última peça daquela loja que amamos. Autoestima? O que é isso? Esquecemos do que se trata esse sentimento.

Porra, para e pensa: ao invés de lembrar do que ele tinha de bom, triturando mais ainda o coração, recordando os best moments e incorporando o papel de masoquista, chafurdando na lama ou no gelo, se toca e lembra do que não prestava no sujeitinho. Seja sádica, masoquista nunca. Hahahaha!

Lembrar por exemplo daquela "bundinha sofrida" que se dirigia ao banheiro enquanto você ainda estava deitada na cama depois dos melhores momentos é tudo. Acrescente-se à cena trágica as estrias, a cabeça careca, o brinquedo tamanho PP, os e.mails com erro de português, a pela-ovário da sua sogra, as batatadas que o carinha falava na frente de suas amigas, o humor de Seu Lunga quando você estava sem o menor saco pra aturar, as vezes que ele te deu um balão, as patifarias dele quando você estava linda e ele entortando a cabeça pra olhar aquela paraíba popozuda que acabou de passar, os momentos cruciais que ele não compareceu (em geral eram os mais importantes e necessários), a cueca de saco de batatas ou com freada de caminhão, as cenas de ciúmes irritantes e sufocantes, aquela barriga sentada no seu sofá no Domingo dada à bebedice enquanto você cheia de energia só queria sentir os seus cabelos ao vento numa praia, o fato do carinha não ter te escolhido mas sim aquela songamonga que nem se compara à você (denunciando o mau gosto dele), as crises de bebezinho fora de hora quando você teve um dia de cão no trabalho, enfim, a lista seria infinita... Cada uma que faça a sua interminável.

Portanto, freio ABS, sigla que metaforicamente traduzida ficaria assim descrita: "Asco de Bundinhas Sofridas".

Um brinde ao novo artigo feminino de libertação e renovação de vida. E, que as nossas bundas cresçam e que os nossos freios do discernimento funcionem, sempre!